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Da perda gestacional

por Clara, em 02.03.15

Há uma petição em curso para a criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional.

Eu assinei, muito provavelmente devido ao que vos conto em seguida.

 

Eu já perdi um filho, o meu primeiro filho. Perdi-o com poucas semanas de gestação. Não sei comparar dor, não conheço escalas que meçam a dor de uma pessoa que perde um filho sem o ter no colo, a dor de uma pessoa que perde um filho no parto, que perde um filho com muitos anos de vida... não sei. Sei, apenas e só, a dor que eu senti e, asseguro-vos, é a pior de todas, porque é a MINHA dor. Vi, no meu sangue, e senti, no meu corpo, a perda. Nunca se está preparado para isto!

Quis o destino que naquele dia acordasse com dores no corpo todo. Saí da cama e fui directamente ao wc. Sangue. Larguei imediatamente num pranto de desespero, certa do que estava a acontecer. Já na triagem das urgências e a conter o choro expliquei à enfermeira o porquê de ali estar. Subi para o piso de Obstetrícia e na sala de espera contive-me durante uma hora. Uma hora em que vi entrar e sair mulheres grávidas e eu, ali, de cabeça no ombro do meu marido, rezava para que tudo não passasse de um susto. Entrámos os dois no consultório e, após ser analisada, confirmou-se a perda. "O saquinho está vazio" são palavras que eu jamais esquecerei. O médico explicou, "estas coisas são muito comuns no início da gravidez, daqui a dois ou três meses já pode tentar engravidar novamente". Saí com indicação de ben-u-ron para as dores e descanso. 

Percorro o corredor em direcção ao elevador e deixo cair a máscara de mulher forte. Não aguentava mais. Permito-me chorar alto, perguntar porquê, porquê eu, não acredito nisto... Uma auxiliar de acção médica teve a sensibilidade de me pegar na mão e levar para uma salinha pequena, sentou-me e pediu ao meu marido que se sentasse a meu lado. Trouxe-me um copo de água. "Fique aqui o tempo que precisar", dizia-me. "Vou buscar a declaração do médico para requerer a licença da segurança social". Eu respondi que não precisava, dali seguiria para o trabalho. Aconselhou-me a não fazê-lo, a descansar uns dias. Trouxe o papel. É verdade que não fiz uso dele mas apreciei o seu gesto e, mais ainda, a sua SENSIBILIDADE.

Fui para casa, não tive nem a força, nem a coragem para falar com a única pessoa que me sabia grávida, a minha irmã. Mandei-lhe um sms. Pedi ao meu marido que ligasse para o escritório, falasse com o meu chefe e desculpasse a ausência daquele dia, 5ª feira, e do seguinte, 6ª, com uma infecção nos rins. Sei lá eu onde fui buscar tal argumento, pareceu-me servir. Descontaria os dias em férias. Férias, que ironia!

Mas porquê, pergunto hoje, à distância de dois anos e meio, porquê aquela necessidade de ocultar o sofrimento, sentindo um misto de culpa e de vergonha por ter sofrido um aborto. Que palavra tão horrível! Nem aos meus pais contei. Não era nada daquilo que eu queria. Eu imaginava o momento em que anunciar-lhes-ia que estava grávida, não que estivera grávida e que, poucos dias depois, perdi o meu bebé. O meu bebé. O nosso bebé. 

Partilhei com uma amiga, meses depois. Com a minha mãe, um ano depois.

Sufoquei a minha dor, calei o meu sofrimento, não queria que sentissem pena de mim nem me dessem uma palmadinha nas costas. Muitos nem sequer compreenderiam que se sofre tanto, mas tanto pela perda de um filho que não soubémos o sexo, não conhecemos os traços, nem sentimos o cheiro.

 

Engravidei novamente e tive o meu menino. Correu tudo bem. Ficou tudo bem. Mas não esqueço que PERDI o meu primeiro filho. E também não esqueço o olhar das mães que fizeram comigo o curso de preparação para o parto quando, no primeiro dia do mesmo, eu digo o meu nome, o sexo, o nome do meu bebé e a data prevista de nascimento. Acrescentei o seguinte: "eu não sou mãe de primeira viagem"  - era este o termo que as colegas estavam a usar na sua apresentação. "Este é o meu segundo filho, o primeiro perdi-o às 6 semanas de gestação". Juro que o olhar que recebi foi de recriminação e, nas suas expressões faciais, vi perfeitamente que não percebiam o porquê de eu estar a dizer aquilo ali.

Julgo ser esta a falta de SENSIBILIDADE que se pretende despertar com a petição que vos falava no ínicio.

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3 comentários

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De Anónimo a 21.12.2015 às 20:48

Eu passei pelo mesmo este ano, perdi o meu primeiro filho. Enquanto estava a ler este texto estava-me a rever exatamente em quase tudo, realmente só quem passa por isso é que sabe a dor que é. Ainda bem que correu tudo bem na segunda gravidez, espero que comigo tambem seja assim pois com o que me aconteceu ganhei aquele medo que aconteça tudo outra vez.
Muitas felicidades :)
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De http://puren-sweet.blogspot.pt/ a 21.12.2015 às 20:54

Eu passei pelo mesmo este ano, perdi o meu primeiro filho. Enquanto estava a ler este texto estava-me a rever exatamente em quase tudo, realmente só quem passa por isso é que sabe a dor que é. Ainda bem que correu tudo bem na segunda gravidez, espero que comigo tambem seja assim pois com o que me aconteceu ganhei aquele medo que aconteça tudo outra vez.
Muitas felicidades :)
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De Clara a 29.12.2015 às 14:24

O medo vai estar sempre lá. Esteve na minha segunda gravidez e, agora, na terceira que está a aproximar-se do termo. Os primeiros meses, então, são sempre os mais críticos em termos de ansiedade e inquietações. É perfeitamente natural, mas acredita que da próxima vez tudo vai resultar e não tarda terás o teu filho nos braços (que é só a melhor coisa do mundo ;) )

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A escrita é o meu espelho e, se querem saber mais sobre mim, basta que consigam ver-me para além dele.

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